Carnaval vira dor de cabeça para Lula e gera reação negativa nas redes

Carnaval vira dor de cabeça para Lula e gera reação negativa nas redes

O governo avalia que o desfile da escola Acadêmicos de Niterói, que levou à avenida um enredo sobre a vida do presidente Lula, deve causar mais desgaste político do que problemas jurídicos. Nos bastidores, a leitura é de que o impacto simbólico do desfile, especialmente o trecho que ironizou grupos evangélicos na ala chamada “Neoconservadores em conserva”, pode afastar um público que o PT tenta se aproximar há anos — sem grande sucesso.

Interlocutores de Lula relatam incômodo dentro da própria base aliada. Um dos episódios citados foi a ligação de uma liderança evangélica que havia migrado do bolsonarismo para o lulismo e reclamou diretamente da forma como o segmento foi retratado no desfile. O temor é de que esse tipo de imagem reforce ruídos com um eleitorado que já é resistente ao presidente e ao PT.

A avaliação interna também considera que a reação nas redes sociais foi majoritariamente negativa. Levantamento da agência Bites aponta que, entre o domingo do desfile e a manhã de segunda-feira, foram registradas cerca de 510 mil menções ao tema em redes sociais, plataformas de vídeo, sites de notícias e blogs. O tom predominante foi de crítica, com questionamentos sobre o uso de dinheiro público para um enredo que exaltaria o presidente e suspeitas de campanha antecipada.

No X (antigo Twitter), onde se concentrou a maior parte das menções, a leitura automatizada apontou maioria de comentários negativos ao governo, com vantagem significativa sobre as manifestações positivas. O cenário reforça a percepção de que, do ponto de vista da comunicação política, o episódio foi mais um passivo do que um ativo para o Planalto.

No campo jurídico, a leitura também é de cautela, mas sem pânico. Aliados avaliam que, em 2026, o Tribunal Superior Eleitoral terá uma composição diferente da que julgou os casos mais sensíveis em 2022. A presidência da Corte deve ficar com Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, o que, na visão de interlocutores do governo, torna o ambiente menos previsível e mais propenso a decisões apertadas.

Mesmo assim, a avaliação predominante é que o episódio dificilmente levaria a uma medida extrema, como a impugnação de candidatura. A expectativa mais realista nos bastidores é de alguma punição pontual, como aplicação de multa, caso a Justiça entenda que houve irregularidade. O dano principal, portanto, é político: ruído com evangélicos, desgaste de imagem e munição extra para a oposição em ano pré-eleitoral.